quarta-feira, julho 07, 2010

Meu sotaque: O Complexo de Roberto Leal





Ainda me lembro muito dos meus primeiros dias em Portugal, inclusive aquele que liguei à operadora de telemóveis TMN, para trocar o meu tarifário por um mais em conta.  Depois de passar por todas opções de atendimento automáticas, finalmente passaram-me para um operador. Como de praxe, ele perguntou-me a referência (código) do meu celular. Aquele momento, resumido a frações de segundos, foi decisivo para a morte do meia, de meia dúzia. O operador disse bem resistente, quando eu comecei a dizer o meu número bem devagarinho: nove, meia, meia… Antes que eu chegasse ao segundo “meia” ele disse, firmemente, sem hesitar: SEIS. Apesar de ter tido a confirmação posterior em outras situações, aquela imposição de voz foi suficiente para entender que a expressão “meia”, de meia dúzia, de seis, não era usada por estes lados de cá e que não soava bem no ouvido de alguns.
Mas é o “oi”, de quem diz “o quê?” que causa mais polémica e às vezes até repulsa por partes de algumas pessoas. Há alguns que perguntam, ironicamente: “Por que, no Brasil, vocês indagam com oi?”. Outros, mais jocosos, começam logo a imitar, numa sequência de “oi? oi? oi?” até se desmancharem em gargalhadas. No inicio é difícil entender essa postura, mas depois de muitas conversas, percebe-se que muitos portugueses acham que dizer “oi” é mal-educado e demasiado informal. Isso demonstra como temos códigos culturais diferentes e às vezes conflituantes.
Passei por estas duas situações, entre outras, quando cheguei cá, em Portugal, há quase quatro anos. Neste espaço de tempo, vivi com franceses, italianos e espanhóis. Tive de abrir a boca, articular as palavras e aos poucos meu sotaque foi se modificando. Deixei de falar aqueles negócios de Minas como “uai”, “trem” e “sô, sá" para me fazer entendida mais rapidamente. Por outro lado, adoptei o “fixe”, o “giro”, o “bué” e eliminei o excesso de gerúndios. Ainda não falo termos como “cú” ou “rabo” para dizer bunda ou “cuecas” para dizer calcinhas. E continuo a tratar todas as pessoas por você (considerado formal), em vez de usar o informal e descontraído “tu”. Às vezes, é verdade, que me sai um “tás bem?” ou “vais não sei o quê?, criando uma grande mistura.

Assim, fui caindo naquilo que tenho chamado de complexo de Roberto Leal, assunto do qual quero falar nesta crónica. Vejamos! Roberto Leal, o loiro do roda roda vira, nasceu numa pequena freguesia de Macedos de Cavaleiros, no Distrito de Bragança, região norte de Portugal. Fez sucesso no Brasil, nos anos 70, com sua música inocente e regional, onde foi e, se calhar, continua a ser o ícone da cultura portuguesa, embora tenha emigrado para o Brasil, aos 11 anos de idade.
Já foi apontando em pesquisas e pela imprensa, como o português mais conhecido do Brasil, acima de nomes como José Saramago, Fernando Pessoa e até mesmo Pedro Álvares de Cabral.
Lembro-me de vê-lo no programa do Gugu, aos Domingos, e pôr-me de pé para dançar “Arrebita- Bate o pé” à frente da televisão, ou ainda “Vira Vira / Se você sair da roda/ olha que eu saio também”. Na memória colectiva do brasileiro, Roberto Leal é aquele que falava diferente nos programas de TV, que contava histórias de Portugal e nos fazia imaginar aquele país lá na Europa que tinha uma língua parecida com a nossa. Foi considerado um verdadeiro embaixador cultural de Portugal, embora para os portugueses isto soe extremamente ridículo. Mas é verdade ponto final. Infelizmente, Amália Rodrigues não chegou a cumprir este papel no Brasil.
Talvez, em Portugal, alguns não saibam, mas o grupo Mamonas Assassinas, quando cantava “Vira-Vira”, parodiava a música de Roberto Leal, fazendo o sotaque português. Com tanta polémica em volta do nome de Roberto Leal, a pergunta é: Será ele português ou brasileiro?
Do lado de cá do Atlântico (Portugal), Roberto Leal é um renegado, sendo reconhecido por muitos portugueses como brasileiro, inclusive muitos até pensam que ele é de facto brasileiro, com sotaque brasileiro, enquanto para nós, brasileiros, ele é altamente português.
E é neste ponto que chegamos ao complexo de Roberto Leal, que actualmente vivo. Para os brasileiros meu sotaque já é português. Para os portugueses meu sotaque é tão brasileiro que, uma vez, uma jornalista (a brincar, disse ela, é claro) me disse que eu tinha de começar a falar português. Eles acham engraçado meu modo de falar e seguem fazendo graça, sempre que conheço pessoas novas. Alguns se acostumam, outros não. Será meu sotaque brasileiro ou português? Se querem resposta, devo dizer que é híbrido, esquisito e gerado por alguma falta de identidade. Sou estranhada por brasileiros e portugueses. Há um mês fui testemunha num julgamento e a primeira pergunta que o juiz me fez foi se "eu era mesmo brasileira ou se só tinha o sotaque". Respondendo que era brasileira da gema, pronunciando uma frase inteira, o juiz com um grande sorriso na cara me disse que meu "sotaque já era um pouco português, mas que não enganava a ninguém".
Vivendo este complexo robertolealista não posso deixar de citar o caso literário, escrito por João Ubaldo Ribeiro, em “Albatroz Azul” (em Portugal, editado pela Nelson de Matos), em que o personagem Nuno Miguel quer voltar para Portugal, para a Beira Alta, para Viseu. Quer levar seu filho Juvenal, já brasileiro, mas decide pelo melhor, como o narrador bem descreve: “O menino, que na fala nada tinha de português, muito menos de beirão, perderia o brasileiro e jamais ganharia o lusitano, vivendo para sempre num limbo de nefastos efeitos em todos os sentidos. Com a fala deturpada pelo resto da existência, o ingresso irrestrito em certos círculos, natural para alguém de elevada posição financial, podia tornar-se muito difícil, senão impossível”.
A minha identificação é directa com Juvenal, um jovem mulato que tem a fala desfigurada pelo convívio com outros sotaques de mesma língua. No entanto, não penso que perdi o brasileiro, e discordo de que jamais ganharei o lusitano. Prefiro dizer que vivo e continuarei a viver o complexo de Roberto Leal, em jeito de metamorfose ambulante.

5 comentários:

Epifania disse...

Minha querida irma ,gostei do assunto abordado ja que Eu mesmo ao ver seu video do Migalhas senti um soar luso a sair de seus belos labios.
Contudo esse deturpaçao pode ser a propia inerente natureza do Cosmopolitismo.
Abaixo as Fronteiras ou Barreiras,selam Linguisticas Geograficas Culturais...
Parabens Irma estas no caminho certo!
Beijos

Vivian disse...

Minha querida,
adorei o texto. Só um comentário: seu sotaque não tem falta de identidade, pelo contrário, ele reflete a possibilidade de uma identidade única, uma mescla que é só sua e por isso tão bonita.
Ps. Eu continua a falar Oi mesmo em Espanha.
beijinhos.

Cláudia Silva disse...

Vivian, eu considero a escrita subjetiva uma espécie de psicanálise. Eu escrevi esta crônica há muito tempo e também já a modifiquei muitas vezes. Agora, depois de ler o seu comentário e de uma amiga no facebook fiquei a pensar porque escrevi "alguma falta de identidade". E cheguei à conclusão que se tivesse uma identidade mais sedimentada quando cheguei em Portugal, meu sotaque não teria mudado. No momento, talvez, o meu sotaque expressa uma identidade em formação, mas na qual eu não me encontro muito bem. Esta pode ser desconstruída a qualquer momento, quando for ao Brasil.

Oi no contexto espanhol deve ser engraçado...hahhaha...Mas posso imaginar, é como os espanhóis que seguem falando "vale" pelo resto da vida deles, seja onde for.hehehe

Beijinhos, linda.

Inês Branco disse...

Claudita, o mais engraçado é que a ortografia do teu post é.... em português de Portugal pré-acordo!! LOL Mas algumas construções de frases estão em português do Brasil. Não deixa de ser um reflexo da tua hibridização. Mas afinal como é que se constrói a nossa identidade? Com as nossas experiências individuais. O importante, penso eu, é que sejas reconhecida(tu e todos os imigrantes em todos os países) como pessoa única, vinda de uma cultura, tendo já, naturalmente, assimilado características daquela em que te inseres agora. De uma coisa ficar segura: nunca deixarás de ser brasileira!!

Cláudia Silva disse...

Inês, mas isto é intencional, afinal é este o Complexo de Roberto Leal expresso em letras. hahahahha