Este é o espaço, onde Cláudia Silva, jornalista profissional desde 2005, escreve sobre coisas que vê e sente.
terça-feira, junho 22, 2010
Falha Informática atrasa atendimento no SEF
Hoje, devido à uma anomalia no sistema informático central do SEF, na Avenida António Augusto Aguiar, Lisboa, mais de 70 pessoas ficaram sem atendimento. Muitos utentes serão reagendados para o novo posto do SEF, que deverá ser inagurado, em Alverca, no fim deste mês.
terça-feira, maio 25, 2010
Alkantara
Depois de ver, ontem, a original obra do argentino Gerardo Naumann, na Junta de Freguesia de Santo-o-Velho, “Uma obra Útil”, daqui a pouco vou assistir a Moscow, uma peça, também documental, da companhia belga Berlin.
Espero ter tempo para vos escrever ainda sobre o trabalho de Luís Guerra, “Hurra!Arre!Apre!Irra!ruh!Pum!” apresentado no Maria Matos. Mas confesso que ainda estou à procura de um sentido deste espectáculo. Só ficaram imagens fragmentadas.
Espero ter tempo para vos escrever ainda sobre o trabalho de Luís Guerra, “Hurra!Arre!Apre!Irra!ruh!Pum!” apresentado no Maria Matos. Mas confesso que ainda estou à procura de um sentido deste espectáculo. Só ficaram imagens fragmentadas.
Festival Alkantara, até agora…

Estou a acompanhar o Festival Alkantara desde a sua abertura - no dia 21 de Maio, com o espectáculo Rádio Muezzin, de Stefan Kaegi, no Teatro Municipal São Luís – todos os dias, exceptuando o Domingo. Por isso, nestes dias, gostaria de compartilhar convosco as minhas experiências teatrais de uma forma descomprometida, porém livre e honesta.
Dia 21 de Maio – Rádio Muezzin, de e encenado por Stefan Kaegi, do colectivo suíço Rimini Protokoll. O espectáculo vai ser apresentado nos dias 26 e 27 de Maio, no teatro Carlos Alberto, no Porto.
Antes de mais, é preciso confessar que fui ver este espectáculo com algum conhecimento prévio, o que muda sempre a perspectiva de quem vê. Tinha uma expectativa já alimentada por gente que já tinha me falado sobre o trabalho de Stefan Kaegi e também pelas boas palavras dos jornais acerca do teatro documental do jovem encenador suíço.
A grande riqueza deste espectáculo é a possibilidade de nos aproximarmos, nem que seja por 80 minutos, da cultura dos muçulmanos. Temos à nossa frente 3 muezzins que nos contam intimidades das suas vidas, desde a infância, até o caminho que percorreram até se tornarem os homens responsáveis pelos cinco cânticos/chamadas diárias à oração, nos minaretes, das mesquitas de Cairo. A linha documental, escolhida por Kaegi, dá voz àqueles muezzins, mas sobretudo humaniza-os, mostrando-os como homens de carne e osso, que assim como qualquer ser humano, inserido numa determinada cultura, alimenta sonhos e alvos a ser conquistados, opondo-se, assim, à imagem conflituosa dos muçulmanos, construída pelos media.
Assim como numa mesquita, eles estão descalços sobre largos tapetes. Por cima deles há ventiladores de tecto e por trás há quatro telões, onde são passadas imagens reais da vida deles e das suas famílias. O vídeo reforça o carácter documental da peça à medida que complementa visualmente as histórias contadas pelos muezzins. Muitas vezes, durante o espectáculo, tem-se a sensação de que é um grande e aberto álbum de fotografias.
Rádio Muezzin também é uma crítica à nossa sociedade industrial, em que o homem é substituído pela máquina. Toda a história dos muezzins vai confluir na base condutora do enredo: o conflito da substituição da função essencialmente religiosa dos muezzins por um sistema de rádio que irá uniformizar e transmitir a oração para todo o Cairo.
Num certo momento, passamos a ter outros dois pontos de vista: um quarto muezzin que por ter abandonado o espectáculo a meio do caminho, é substituído por um actor que lê seus relatos e mostra suas fotografias e imagens e o de um homem que nunca quis ser muezzin, mas se interessou em desenvolver um sistema de rádio que dinamizasse a transmissão das orações.
Stefan Kaegi é um jovem suíço de 38 anos que é conhecido por trabalhar em diferentes países, temas locais, com nativos do determinado lugar em questão. Entre outros países, o encenador já trabalhou na Argentina encenando toureiros argentinos e no Brasil, polícias brasileiros.
sábado, maio 08, 2010
O cenário é a mensagem
Márcia Lança e João Calixto no palcofoi uma das fontes de inspiração dos criativos."Ao olhar para o quadro interessou-me imaginar o que estava à volta, e que a pintura não mostra. Está alguém do outro lado da janela? O que há no resto do quarto?", disse a coreógrafa Márcia Lança à Time Out.
Morning Sun, criação de Márcia Lança com João Calixto, em cena no Negócio, até dia 9, é um espectáculo feito com madeiras e pregos. Não passa de uma metáfora da nossa vida de conquistas e desafios.
O filósofo canadiano Marshall McLuhann (1911-1980) já dizia que o meio é a mensagem e profetizava que os meios de comunicação se tornariam extensões do homem contemporâneo. Morning Sun, criação de Márcia Lança com João Calixto, em cena no Negócio, espaço da ZDB, até dia 9, faz-nos lembrar as teorias deste homem visionário dos estudos de comunicação, nascido em Toronto. Nesta peça, a mensagem está na própria cenografia que é construída e desafiada à destruição, constantemente, à frente do público. Aqui, o corpo do actor é sincronizado com os elementos cénicos, confundindo-se entres eles. Um é extensão do outro. A imagem vem da madeira manipulada e a história é o espectador quem cria.
Assim, não é por menos que começamos a ver João, o cenógrafo, de um lado e, Márcia, a intérprete, de outro. João começa a trabalhar, metodicamente, com suas peças de madeira e uma potente pistola de pregos. Márcia continua estática, encostada à parede, à espera. Peça à peça, João monta uma cadeira, como se fosse um brinquedo da Lego. Márcia, por sua vez, é a boa rapariga que vai provar o vestido à encomenda. Senta-se e vê que está tudo bem. Porém aquela constatação não é suficiente para nenhum dos dois. Por isso, um novo desafio é proposto: pôr a cadeira sobre quatro colunas, com pequenos quadrados de madeira. Desta vez, João não está sozinho na tarefa. Márcia ajuda-o. A cadeira transforma-se num trono, onde a boa rapariga novamente se senta e só se levanta sobre duas pequenas colunas, antes bases da cadeira. João vai tirando peça por peça, numa espécie de dominós quadrados e incolores, até Márcia completar um círculo e, pisar, enfim o chão. Entreolham-se, mas não falam um com outro. Márcia parece, em certos momentos, esperar o “ok” de João para continuar a empreitada. Qual será a ligação que haverá entre os dois? Não se sabe ao certo. Pode ser a metáfora de um casal que constrói uma vida comum, ou um marceneiro com uma assistente, duas crianças que brincam a montar um puzzle, ou simplesmente dois artistas em palco. E é esta abertura de interpretação que concede ao espectáculo uma democracia poética, emblemática e bem conseguida. Se os próprios actos falam por si, seria ainda necessário ter uma história com palavras? Sem dúvida alguma, neste Morning Sun o cenário é a mensagem.
É um espectáculo lúdico, mágico e, sobretudo, excitante em que a sensação que algo monumental vai surgir daquelas 30 tábuas, 1800 pregos, 38 sarrafos e pistola de prego, espalhadas pelo palco, é uma constante. É, sumariamente, feito de desafios, de castelos de areia, neste caso, de madeira, que são constantemente provados ao desmoronamento. Também é verdade que o público espera mais, algo de grandioso, que não chega a acontecer. Contudo, a leveza da improvisação imprime no espectáculo uma realidade cruel de que “um dia a casa cai”, trazendo-nos para a verdade minimalista desta peça, sem nos tirar a sensação de que isso tudo não passa de uma metáfora da nossa vida de conquistas e desafios.
O filósofo canadiano Marshall McLuhann (1911-1980) já dizia que o meio é a mensagem e profetizava que os meios de comunicação se tornariam extensões do homem contemporâneo. Morning Sun, criação de Márcia Lança com João Calixto, em cena no Negócio, espaço da ZDB, até dia 9, faz-nos lembrar as teorias deste homem visionário dos estudos de comunicação, nascido em Toronto. Nesta peça, a mensagem está na própria cenografia que é construída e desafiada à destruição, constantemente, à frente do público. Aqui, o corpo do actor é sincronizado com os elementos cénicos, confundindo-se entres eles. Um é extensão do outro. A imagem vem da madeira manipulada e a história é o espectador quem cria.
Assim, não é por menos que começamos a ver João, o cenógrafo, de um lado e, Márcia, a intérprete, de outro. João começa a trabalhar, metodicamente, com suas peças de madeira e uma potente pistola de pregos. Márcia continua estática, encostada à parede, à espera. Peça à peça, João monta uma cadeira, como se fosse um brinquedo da Lego. Márcia, por sua vez, é a boa rapariga que vai provar o vestido à encomenda. Senta-se e vê que está tudo bem. Porém aquela constatação não é suficiente para nenhum dos dois. Por isso, um novo desafio é proposto: pôr a cadeira sobre quatro colunas, com pequenos quadrados de madeira. Desta vez, João não está sozinho na tarefa. Márcia ajuda-o. A cadeira transforma-se num trono, onde a boa rapariga novamente se senta e só se levanta sobre duas pequenas colunas, antes bases da cadeira. João vai tirando peça por peça, numa espécie de dominós quadrados e incolores, até Márcia completar um círculo e, pisar, enfim o chão. Entreolham-se, mas não falam um com outro. Márcia parece, em certos momentos, esperar o “ok” de João para continuar a empreitada. Qual será a ligação que haverá entre os dois? Não se sabe ao certo. Pode ser a metáfora de um casal que constrói uma vida comum, ou um marceneiro com uma assistente, duas crianças que brincam a montar um puzzle, ou simplesmente dois artistas em palco. E é esta abertura de interpretação que concede ao espectáculo uma democracia poética, emblemática e bem conseguida. Se os próprios actos falam por si, seria ainda necessário ter uma história com palavras? Sem dúvida alguma, neste Morning Sun o cenário é a mensagem.
É um espectáculo lúdico, mágico e, sobretudo, excitante em que a sensação que algo monumental vai surgir daquelas 30 tábuas, 1800 pregos, 38 sarrafos e pistola de prego, espalhadas pelo palco, é uma constante. É, sumariamente, feito de desafios, de castelos de areia, neste caso, de madeira, que são constantemente provados ao desmoronamento. Também é verdade que o público espera mais, algo de grandioso, que não chega a acontecer. Contudo, a leveza da improvisação imprime no espectáculo uma realidade cruel de que “um dia a casa cai”, trazendo-nos para a verdade minimalista desta peça, sem nos tirar a sensação de que isso tudo não passa de uma metáfora da nossa vida de conquistas e desafios.
terça-feira, janeiro 12, 2010
Mouraria é Lisboa inteira
Antes de mais, é importante dizer que vivi em diversos pontos do bairro, de 2006 até o mês passado. Há portugueses que não vão a este bairro, por ser considerado uma zona perigosa. Localiza-se no centro histórico de Lisboa. Eis a minha homenagem:
Bairro da Mouraria: lembra o verbo morar. Rima com Olaria. Estamos na Rua dos Cavaleiros, próximo à Rua do Benformoso e da janela vê-se o vizinho a tirar os espinhos das rosas vermelhas. Exacto! O senhor indiano que vende rosas vermelhas nas altas horas da madrugada nos restaurantes do Bairro Alto está ali, no prédio em frente, ocupado com sua actividade diária. O morar da Mouraria é o morar do outro. Os prédios estão colados uns aos outros. Vê-se o outro, fala-se com o outro a estender a roupa. A seguir, os dias de chuva, Mouraria cheira a amaciador. A janela toma lugar de quintal. A língua de Camões, naquele que foi seu bairro, metamorfoseia-se em diferentes sotaques e tons. Uma estátua de uma viola portuguesa dá eco ao lugar de origem do ritmo mais português de sempre. Na Mouraria ainda é possível sentar-se ao pé de uma bananeira. Num bairro de 5 mil habitantes, pode-se ler um cartaz, pregado num muro, em mais de 5 línguas, e escrito à mão: um pedido para não se deitar lixo, nos dias em que não há recolha. Neste bairro, há vida clandestina, mas há vida de aldeia. Hás casas encavalitadas, como àquelas que tanto julgamos nos países de terceiro mundo. Há Banco de Tempo Mouraria é muito mais do que um bairro. É uma Lisboa inteira.
quarta-feira, dezembro 09, 2009
Uma ponte lisboeta no Oceano Atlântico
Caetano Veloso esteve em Lisboa para falar sobre o livro pessoano ''Mensagem''. Mas acabou recaindo na polêmica que envolve sua declaração a respeito do presidente brasileiro.
Crédito foto: Elena San MartínExiste uma ponte invisível que liga Lisboa ao Brasil. De repente, não mais que de repente, parece que estão todos cá, do lado europeu do Oceano Atlântico, muito mais acessíveis aos portugueses do que um dia poderiam ser aos brasileiros, devido à pequena dimensão geográfica deste país. É que Caetano Veloso veio a Lisboa e pude vê-lo falar sobre a influência do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, no Tropicalismo. Ele esteve na Casa Fernando Pessoa, com entrada livre, na última sexta-feira, o mesmo 04 de Dezembro em que Gal Costa apresentou-se no CCB (Centro Cultural de Belém), uma das mais importantes instituições culturais portuguesas. Não chegamos a ver Gal, mas não deixa de ser curioso pensar esta ligação entre os dois países, como se estivéssemos num só lugar. Afinal, Gal Costa estreou como cantora ao lado de Caetano Veloso há 45 anos. Os ares quentes do verão brasileiro também vieram aquecer o inverno de Lisboa através de Edson Cordeiro (concerto também no dia 4), por sua vez, cantor integrante da programação do Centenário do Nascimento da luso-brasileira Carmen Miranda (considerada a precursora do Tropicalismo), comemorado pelo Teatro Municipal São Luís, situado na bela Baixa lisboeta, na segunda rua à esquerda do tradicional Café chamado “A Brasileira”, onde está a famosa estátua de Fernando Pessoa.
À parte de todas essas ligações congruentes, Caetano Veloso, ao lado do poeta e filósofo brasileiro Antônio Cícero, inaugurou naquela noite o ciclo “Livres Pensadores”. A conversa foi mediada pela directora da Casa Fernando Pessoa, a escritora e jornalista Inês Pedrosa. Caetano não cantou, nem sequer assobiou. E a mensagem sobre a influência de Mensagem no Tropicalismo, movimento cultural que revolucionou a música brasileira no fim da década de 60, parece não ter ficado muito clara. Tanto Caetano Veloso quanto Antônio Cícero leram os próprios textos, em vez de discursarem. A espontaneidade só veio à tona quando Inês Pedrosa abriu a conversa ao público. O que parece ter ficado límpido, manchete em blogues de jornalistas portugueses, foi o facto de Caetano Veloso ter se defendido, sem ninguém tocar no assunto, da polémica na qual foi implicado por ter se referido a Lula como analfabeto.
Numa sala superlotada, iluminada pelos flashes - sublinho que a entrada era livre -, com uma outra platéia no andar de baixo a ver a sessão num projetor, o músico baiano, num tom de redenção, disse: “Era algo realmente algo feio de se ver na primeira página do jornal. Feio, porque primeiro não é verdade factual: Lula não é analfabeto. Segundo, porque esse tom me parecia semelhante ao tom grosseiro que tanto me desagrada na nova direita que faz sucesso nos media”.
Caetano disse não estar interessado em corrigir a “edição sensacionalista das suas palavras. Estava mais interessado em quebrar o tabu de em certas rodas, amplamente majoritárias, estar proibido dizer-se mal de Lula”.
Mas o momento de lavar a mancha com água sanitária emerge quando o músico proclama: “à luz tropical do sebastianismo de Pessoa via Agostinho (Agostinho da Silva), Lula surge a meus olhos como uma figura de grandeza histórica e épica. Uma grandeza do tipo épico em versos líricos que se encontra em “Mensagem”. Sinto ternura, simpatia, amor pelas figuras que pareçam carregar a tocha dessa caminhada em que me descobri implicado desde menino”.
Depois de esbanjar em palavras, Caetano volta a dizer que não imagina com facilidade um outro lugar no mundo onde o Presidente não domine a língua oficial do país, que “nem sequer concorde os artigos com os substantivos” e ainda seja louvado pela nação. “Nem na Argentina, nem na França, nem nos Estado Unidos, nem em lugar nenhum”. Fechando com palavras de ouro, Caetano considera o facto um sinal de “originalidade brasileira”, que vem de “sermos portugueses, de termos sido colonizados dessa maneira que agradou ao Gilberto Freyre”.
O debate com a platéia ainda trouxe à tona outros assuntos polêmicos. O tempo da palestra já se estendia para além daquilo que os organizadores previam. Inês Pedrosa, para finalizar a conversa, fez uma chamada geral: “temos de ir, porque temos de ir ver a Gal no CCB”.
Numa sala superlotada, iluminada pelos flashes - sublinho que a entrada era livre -, com uma outra platéia no andar de baixo a ver a sessão num projetor, o músico baiano, num tom de redenção, disse: “Era algo realmente algo feio de se ver na primeira página do jornal. Feio, porque primeiro não é verdade factual: Lula não é analfabeto. Segundo, porque esse tom me parecia semelhante ao tom grosseiro que tanto me desagrada na nova direita que faz sucesso nos media”.
Caetano disse não estar interessado em corrigir a “edição sensacionalista das suas palavras. Estava mais interessado em quebrar o tabu de em certas rodas, amplamente majoritárias, estar proibido dizer-se mal de Lula”.
Mas o momento de lavar a mancha com água sanitária emerge quando o músico proclama: “à luz tropical do sebastianismo de Pessoa via Agostinho (Agostinho da Silva), Lula surge a meus olhos como uma figura de grandeza histórica e épica. Uma grandeza do tipo épico em versos líricos que se encontra em “Mensagem”. Sinto ternura, simpatia, amor pelas figuras que pareçam carregar a tocha dessa caminhada em que me descobri implicado desde menino”.
Depois de esbanjar em palavras, Caetano volta a dizer que não imagina com facilidade um outro lugar no mundo onde o Presidente não domine a língua oficial do país, que “nem sequer concorde os artigos com os substantivos” e ainda seja louvado pela nação. “Nem na Argentina, nem na França, nem nos Estado Unidos, nem em lugar nenhum”. Fechando com palavras de ouro, Caetano considera o facto um sinal de “originalidade brasileira”, que vem de “sermos portugueses, de termos sido colonizados dessa maneira que agradou ao Gilberto Freyre”.
O debate com a platéia ainda trouxe à tona outros assuntos polêmicos. O tempo da palestra já se estendia para além daquilo que os organizadores previam. Inês Pedrosa, para finalizar a conversa, fez uma chamada geral: “temos de ir, porque temos de ir ver a Gal no CCB”.
quinta-feira, julho 16, 2009
Commentary: Men versus Women
The disparity between men and women has been discussed at length over the centuries. And everybody knows the main differences about that. Of course, when we talk about clichés.
Men are more practical than women; meanwhile the latter are more emotional, better cooks. But, I think it has changed little by little. Or maybe it was never the truth. For example in some cases, when men become widowers with children they can develop or just put in practice some skills before an only attributed to women, like multi-tasking. He has to work and look after the children and to manage the house about cleaning and shopping. And this situation can happen with women as well. They can become “the man of the house”.
Maybe this difference doesn’t exist or doesn’t matter, because we all are different.
Men are more practical than women; meanwhile the latter are more emotional, better cooks. But, I think it has changed little by little. Or maybe it was never the truth. For example in some cases, when men become widowers with children they can develop or just put in practice some skills before an only attributed to women, like multi-tasking. He has to work and look after the children and to manage the house about cleaning and shopping. And this situation can happen with women as well. They can become “the man of the house”.
Maybe this difference doesn’t exist or doesn’t matter, because we all are different.
sexta-feira, julho 03, 2009
“O senhor está, obviamente, arrependido? Não está?
Manhã de sexta-feira. Primavera, Lisboa, sandálias e pernas de fora, mas estamos no tribunal. Favor desligar os telemóveis. Vamos ouvir o arguido? Pergunta a juíza aos colegas. À direita dela está o procurador do Ministério Público, à sua esquerda o advogado de defesa, e à sua frente, o acusado. Atrás do acusado, o ofendido.
Está composto o palco na sala do tribunal. As audiências são abertas ao público, que pode se acomodar nas cadeiras de madeira, iguais às cadeiras, nas salas de tribunal, vistas por mim no Brasil. Parece que é uma decoração de interior das salas de tribunal tradicionalista em todo mundo.
O julgamento está a iniciar, proclama a juíza. Ela com ajuda do escrivão, metodicamente, pede ao acusado que permaneça em pé e diga o nome próprio, data de nascimento, naturalidade, profissão, ordenado, morada, estado civil, número de filhos e se tem casa própria e se não, qual é o valor da renda.
A juíza lê o processo e em seguida indaga ao acusado se aquela acusação é verídica. Este é o momento crucial do julgamento, que pode terminar por ali, ou ser levado adiante, por dias e meses, caso o acusado negue. Naquele dia, muitos confessaram que estavam a conduzir embriagados e alguns negaram acusações mais graves.
Em uma pergunta indutiva, em tom religioso e a roçar à repreensão maternal, a juíza novamente interroga, quando o acusado confessa:
- “O senhor está, obviamente, arrependido, não está? E a resposta de um deles é:
- Claro que estou, tenho muita vergonha, tanto que minha família nem sabe que estou aqui!
E, com uma expressão sorridente e de catarse por cumprir a função de controlo social em um Estado de Direito, a juíza vira-se para o procurador e para o advogado de defesa, e lhes pergunta se querem pôr alguma questão ao acusado.
Uma nova acusada aparece em cena. É uma moçambicana que estava conduzindo embriagada. Depois do mesmo ritual repetido em todas as audiências, com as mesmas perguntas e frases, a juíza pergunta à acusada, porque aquilo aconteceu.
A incriminada com muita clareza e firmeza na voz explica que não costuma ingerir bebidas alcoólicas, porém, naquele dia fatídico estava comemorando na casa de um dos seus amigos a conclusão de um curso. Estava feliz e a beber uns copos. Resolveu ir para casa e quando de repente perdeu o controlo do carro, atirando-se contra outro automóvel.
Após ouvir a narrativa da acusada, a juíza pergunta-lhe:
- “A senhora, obviamente, está arrependida, não está?”
- “Estou sim.”
- “Pronto. Vou poupar-lhe de qualquer leitura de sentença. A senhora receberá a sentença em casa por correspondência.”.
Aqui, é claro que simplifiquei o complicado discurso da juíza que é pomposo e bem elaborado. Poderia dizer que é melodioso, por ser repetido várias vezes. Isto, digo eu, depois de ouvi-la durante duas horas a repetir as mesmas palavras.
Nova audiência é iniciada, o acusado de fato e gravata entra em cena, juntamente com a advogada loira. Entretanto, após o vai e vem do escrivão, a juíza pronuncia:
- “O ofendido não compareceu. Está encerrada a audiência”. Aquilo, pareceu-me uma peripécia, típica das telenovelas. Estava à espera de um caso mais alarmante que desse uma boa crónica, porque até aquele momento tinham passado por ali pobres coitados que tinham bebido além da conta e fizeram mal em conduzir embriagados. Porém aquele acusado pareceu-me altivo por demais e tinha um charme proveniente de criminosos. Achava, por isso, que seria uma bom caso, mas adiado foi. Que pena!
Está composto o palco na sala do tribunal. As audiências são abertas ao público, que pode se acomodar nas cadeiras de madeira, iguais às cadeiras, nas salas de tribunal, vistas por mim no Brasil. Parece que é uma decoração de interior das salas de tribunal tradicionalista em todo mundo.
O julgamento está a iniciar, proclama a juíza. Ela com ajuda do escrivão, metodicamente, pede ao acusado que permaneça em pé e diga o nome próprio, data de nascimento, naturalidade, profissão, ordenado, morada, estado civil, número de filhos e se tem casa própria e se não, qual é o valor da renda.
A juíza lê o processo e em seguida indaga ao acusado se aquela acusação é verídica. Este é o momento crucial do julgamento, que pode terminar por ali, ou ser levado adiante, por dias e meses, caso o acusado negue. Naquele dia, muitos confessaram que estavam a conduzir embriagados e alguns negaram acusações mais graves.
Em uma pergunta indutiva, em tom religioso e a roçar à repreensão maternal, a juíza novamente interroga, quando o acusado confessa:
- “O senhor está, obviamente, arrependido, não está? E a resposta de um deles é:
- Claro que estou, tenho muita vergonha, tanto que minha família nem sabe que estou aqui!
E, com uma expressão sorridente e de catarse por cumprir a função de controlo social em um Estado de Direito, a juíza vira-se para o procurador e para o advogado de defesa, e lhes pergunta se querem pôr alguma questão ao acusado.
Uma nova acusada aparece em cena. É uma moçambicana que estava conduzindo embriagada. Depois do mesmo ritual repetido em todas as audiências, com as mesmas perguntas e frases, a juíza pergunta à acusada, porque aquilo aconteceu.
A incriminada com muita clareza e firmeza na voz explica que não costuma ingerir bebidas alcoólicas, porém, naquele dia fatídico estava comemorando na casa de um dos seus amigos a conclusão de um curso. Estava feliz e a beber uns copos. Resolveu ir para casa e quando de repente perdeu o controlo do carro, atirando-se contra outro automóvel.
Após ouvir a narrativa da acusada, a juíza pergunta-lhe:
- “A senhora, obviamente, está arrependida, não está?”
- “Estou sim.”
- “Pronto. Vou poupar-lhe de qualquer leitura de sentença. A senhora receberá a sentença em casa por correspondência.”.
Aqui, é claro que simplifiquei o complicado discurso da juíza que é pomposo e bem elaborado. Poderia dizer que é melodioso, por ser repetido várias vezes. Isto, digo eu, depois de ouvi-la durante duas horas a repetir as mesmas palavras.
Nova audiência é iniciada, o acusado de fato e gravata entra em cena, juntamente com a advogada loira. Entretanto, após o vai e vem do escrivão, a juíza pronuncia:
- “O ofendido não compareceu. Está encerrada a audiência”. Aquilo, pareceu-me uma peripécia, típica das telenovelas. Estava à espera de um caso mais alarmante que desse uma boa crónica, porque até aquele momento tinham passado por ali pobres coitados que tinham bebido além da conta e fizeram mal em conduzir embriagados. Porém aquele acusado pareceu-me altivo por demais e tinha um charme proveniente de criminosos. Achava, por isso, que seria uma bom caso, mas adiado foi. Que pena!
segunda-feira, junho 29, 2009
Bull Island Beach in the north of Dublin - Foggy Day
Yesterday I went to the beach. Can laught, but I didn’t go to swim or to stay under sunshine. I only went to there to see one more time the beach in Dublin in the summertime. It was completely foggy, I couldn’t see the sea. I felt as if I was entering the heaven or into cloud. But, at least I touched sand and saw how Irish people enjoy the beach on the really foggy day. Take your towel, put it on the floor, play with your kids and be happy! That's all! No sun, no sea, no suncream(I could say no ice-cream also, but surprisingly someone was selling ice-cream), no tan, no beach!It was strange experience for me!
sábado, junho 13, 2009
Week's Word: Alterity
Sometimes we need to keep away from our native land to know things about ourselves, and about the “other”. It is called “alterity”, according to wikkipedia, “is a philosophisical term meaning ‘otherness’ strictly being in the sense of the other of two (latin alter)”. In other words, the alterity experience take us realize that never would have imagined or seen, due to our difficulty to fix attention or curiosity in simple things that is familiar for us.
I like this term, because I’m abroad almost three years and at the moment is the best term for defining my experience in Europe. I came from the so-called Third World(maybe not) for the First World(maybe yes) on 29 July 2006, specifically in Lisbon.
I really had a great alterity experience. The first one was the way to say salute with two big kisses on the cheeks. So, if you find ten people in the same time you have to kiss each one. Oh, my God, In Brazil I just used to kiss my friends. Besides this, I discovered bad things about me like selfishness and individualism. That time was my first contact with myself out my country. Another alterity experience happened when I met Brazilian people; It went like if I had looked myself on the mirror. I could see the likeness among us.
I left Lisbon one month ago and now I’m in Dublin. It is strange, because I have seen more likeness than difference. Fortunately, Irish people is outgoing, but is crazy to cross the street like my people; what's more the bureaucracy doesn't working. Also is a new experience about Brazilian people, because I’m trying to talk to them only in English.
And why am I talking about this word, Alterity? It is just a introduction to speak about a book, which name is “My Inventend Country - a nostalgic journey through Chile”. The author is a woman Chilean, Isabel Allende that has lived in the USA a long time. She became famous with your the first novel “The House of Spirits” (1982), in 1993 this book was adapted into a film, starred Jeremy Irons, Meryl Streep, Winona Ryder and Antonio Banderas.
The text continues next post...
I like this term, because I’m abroad almost three years and at the moment is the best term for defining my experience in Europe. I came from the so-called Third World(maybe not) for the First World(maybe yes) on 29 July 2006, specifically in Lisbon.
I really had a great alterity experience. The first one was the way to say salute with two big kisses on the cheeks. So, if you find ten people in the same time you have to kiss each one. Oh, my God, In Brazil I just used to kiss my friends. Besides this, I discovered bad things about me like selfishness and individualism. That time was my first contact with myself out my country. Another alterity experience happened when I met Brazilian people; It went like if I had looked myself on the mirror. I could see the likeness among us.
I left Lisbon one month ago and now I’m in Dublin. It is strange, because I have seen more likeness than difference. Fortunately, Irish people is outgoing, but is crazy to cross the street like my people; what's more the bureaucracy doesn't working. Also is a new experience about Brazilian people, because I’m trying to talk to them only in English.
And why am I talking about this word, Alterity? It is just a introduction to speak about a book, which name is “My Inventend Country - a nostalgic journey through Chile”. The author is a woman Chilean, Isabel Allende that has lived in the USA a long time. She became famous with your the first novel “The House of Spirits” (1982), in 1993 this book was adapted into a film, starred Jeremy Irons, Meryl Streep, Winona Ryder and Antonio Banderas.
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domingo, junho 07, 2009
“Silenciados” – A Play of the "Dublin Gay Theatre Festival”

Last May we had in Dublin the international “Gay Theatre Festival”, wich Oscar Wilde was kind of "flag". I went to watch a play with my housemates, a French girl and a Spanish girl. We were expecting to see something in English, but when I caught the program I read “Silenciados” (Physical Theatre) in Spanish. Silenciados? They don’t speak, because is physical interpretation… My friends burst in laughter. For few minutes we were frustrated. But, we had bought our tickets… We did not have choice. But, I must say that was a great experience, because this play used to a homosexual topic to make us think about discrimination, hypocrisy and difference in our life.
First, five handsome men are lying down on the stage covered for a big transparent plastic. The soundtrack begins very loud with Muse song “Butterflies and Hurricanes”. They left the plastic as if they were born at that moment. We could feel their excitation. This feeling was kept inside us during all the play. It is energy, sexual and real.
There were on the stage five characters: "a prisoner 1985 in Auschwitz, caught in a Pink Triangle; Octavio Atuna is a gay activist killed in a small town in 2004; Jesus Prieto is a gay Christian who is struggling with his religious and sexual identity; Paulina is a Guatemalan transsexual and the last one is Mateo Rodriguez, a victim of bullying".
Each one has his time in this play. And sometimes one actor use the own stage to change his clothes, you can see his back part naked. I think is an intentional way to make us realize how our body is natural , it is not something forbidden.
Silenciados is directed by Gustavo Del Río (director of Sudhum Teatro in Madrid) who also performs in a piece devised by the ensemble. The others actors are Pedro Martín, Juan Caballero, Nicolás Gaude, Rubén, Mascato and Samuel Valverde.
First, five handsome men are lying down on the stage covered for a big transparent plastic. The soundtrack begins very loud with Muse song “Butterflies and Hurricanes”. They left the plastic as if they were born at that moment. We could feel their excitation. This feeling was kept inside us during all the play. It is energy, sexual and real.
There were on the stage five characters: "a prisoner 1985 in Auschwitz, caught in a Pink Triangle; Octavio Atuna is a gay activist killed in a small town in 2004; Jesus Prieto is a gay Christian who is struggling with his religious and sexual identity; Paulina is a Guatemalan transsexual and the last one is Mateo Rodriguez, a victim of bullying".
Each one has his time in this play. And sometimes one actor use the own stage to change his clothes, you can see his back part naked. I think is an intentional way to make us realize how our body is natural , it is not something forbidden.
Silenciados is directed by Gustavo Del Río (director of Sudhum Teatro in Madrid) who also performs in a piece devised by the ensemble. The others actors are Pedro Martín, Juan Caballero, Nicolás Gaude, Rubén, Mascato and Samuel Valverde.
Sudhum Teatro Myspace: http://www.myspace.com/elparitorioteatro
sábado, junho 06, 2009
Commentary about the law “Topless sunbathe banned” in Brazil
In my opinion, this law “feeds” the hypocrisy of the Brazilian culture. You can show almost parts of your body, but not all. You can’t do sunbathe topless, but you can arrange your bikini just to cover your nipples. I mean, this law is false, because it doesn’t have function. Is obscene to show your breasts? Why can you show your bottom with smaller under two-part bikini? Is it less indecent? I don’t think so… Is it to protect children; I don’t think so, because they are watching worse things on TV. I agree with “we believe in the right to show our bodies”. It is obvious, Brazilian people are already doing during at “Carnaval Party”. It’s really warm country!
My first sunny weekend in Dublin
Last Friday (29th May) it was a really great temperature, about 20 degrees. I was hopeful that I would have a good weekend with sunshine, and to wear a dress and sandals. But, something that I hadn’t imagined happened. I was going down stairs and suddenly I fell down the stairs in my house and hurt myself. I got a swollen-foot, I couldn’t walk. Unfortunately, I had to spend all day in my bedroom last Saturday. I have fallen down stairs before, but I have never hurt myself. This time I injured myself because I had my laptop in my two hands and I didn’t drop it. So, you know…
After two days I went to hospital. The secretary asked me where I was from and said to me: “Because you are not European you have to pay 250 Euros”. She asked me what was my religion and how old I was. I had to wait 4 hours to do an x-ray and to consult the doctor that asked me where in my foot was aching and if I had fallen before.
Fortunately, she told me that my foot was not broken and I just had keep it up.
After two days I went to hospital. The secretary asked me where I was from and said to me: “Because you are not European you have to pay 250 Euros”. She asked me what was my religion and how old I was. I had to wait 4 hours to do an x-ray and to consult the doctor that asked me where in my foot was aching and if I had fallen before.
Fortunately, she told me that my foot was not broken and I just had keep it up.
sexta-feira, março 27, 2009
Ípsilon
Como vos faço saber tenho feito colaborações para o suplemento cultural do jornal Público, o conhecido "Ípsilon". A primeira edição do "Ípsilon" foi publicada em 2001, ainda com a denominação "Y", mas foi em 12 de Fevereiro de 2007 que aglutinou os outros suplementos culturais do Público, como Mil Folhas(literatura) e Sons (música).
De acordo com o editor do Ípsilon, Vasco Câmara, a reformulação deu-se por uma mudança de pensamento sobre como se pensava a cultura. Antes dividia-se certos assuntos em suplementos diferentes, porque pensava-se que havia públicos diferentes. Na verdade, a distinção que se fazia era entre a Alta e Baixa Cultura, explica Câmara, em entrevista para a produção deste relatório. “Percebeu-se que não fazia sentido dividir os assuntos, porque um leitor que se interessa por literatura pode interessar por cinema e música. Hoje, o suplemento coloca os assuntos em pé de igualdade”.
O suplemento até o ano passado tinha 64 páginas, mas no momento tem 16 páginas a menos. O editor considera que 48 páginas(o número de págs actual) é suficiente para o leitor. Tal lacuna pode ser preenchida com a recente versão online do Ípsilon: http://ipsilon.publico.pt/
Duas vertentes caracterizam o Ípsilon: o jornalismo informativo e a crítica e opinião.
A reportagem, no Ípsilon, não deixa de ir beber à fonte dos "conceitos do jornalismo clássico", mas é marcada pela criatividade, autoria e literalidade.
Enfim, deixo aqui , para que leiam, um link da minha reportagem mais recente :http://ipsilon.publico.pt/teatro/texto.aspx?id=226023
De acordo com o editor do Ípsilon, Vasco Câmara, a reformulação deu-se por uma mudança de pensamento sobre como se pensava a cultura. Antes dividia-se certos assuntos em suplementos diferentes, porque pensava-se que havia públicos diferentes. Na verdade, a distinção que se fazia era entre a Alta e Baixa Cultura, explica Câmara, em entrevista para a produção deste relatório. “Percebeu-se que não fazia sentido dividir os assuntos, porque um leitor que se interessa por literatura pode interessar por cinema e música. Hoje, o suplemento coloca os assuntos em pé de igualdade”.
O suplemento até o ano passado tinha 64 páginas, mas no momento tem 16 páginas a menos. O editor considera que 48 páginas(o número de págs actual) é suficiente para o leitor. Tal lacuna pode ser preenchida com a recente versão online do Ípsilon: http://ipsilon.publico.pt/
Duas vertentes caracterizam o Ípsilon: o jornalismo informativo e a crítica e opinião.
A reportagem, no Ípsilon, não deixa de ir beber à fonte dos "conceitos do jornalismo clássico", mas é marcada pela criatividade, autoria e literalidade.
Enfim, deixo aqui , para que leiam, um link da minha reportagem mais recente :http://ipsilon.publico.pt/teatro/texto.aspx?id=226023
quinta-feira, julho 31, 2008
Sinto que preciso começar de alguma forma... Procuro me informar sobre o meu passado. Pergunto à pessoa que está ao meu lado agora: Como estava eu quando cheguei? A resposta não interessa neste momento... Quero voltar a escrever...
Muitas memórias e personagens na minha vida... Escrevo relatos, memórias, crónicas ou reportagens. Por onde começo...Escrevo como Annie Frank ou lanço-me ao destino como Raskólnikov?
Muitas memórias e personagens na minha vida... Escrevo relatos, memórias, crónicas ou reportagens. Por onde começo...Escrevo como Annie Frank ou lanço-me ao destino como Raskólnikov?
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
O comércio do pão de queijo em Portugal
De uma forma lenta, o pão de queijo, alimento com origem no Brasil, passou a ser comercializado em Portugal. Muitos cafés e pastelarias já o vendem, assim como fabricantes e distribuidores
Os ingredientes do pão de queijo - os ovos, o leite, o queijo ralado, o sal e o polvilho - já estão sobre a mesa da cozinha, enquanto ao fogo se prepara o “escaldado”, um fervido de óleo e leite, que ajuda a humedecer o polvilho e a formar uma massa homogénea.
Quem o está a preparar, em sua casa, é a brasileira Elizabeth Jubilot para a ensinar a receita ao enteado português, Daniel Jubilot, 24, que se intitula “viciado” em pão de queijo. Daniel, morador de Lisboa, já tinha comido muitas vezes o pão de queijo, mas não conhecia a receita. No final da liçao culinária, sente-se satisfeito com o resultado, e vê que afinal é facil fazer a massa e enrolá-la depois em forma de pequenas bolinhas.
Assim como Daniel, outros portugueses já têm o pão de queijo como um hábito alimentar, seja feito em casa ou comprado no café da esquina para acompanhar o cafezinho diário. Elvira Jesus de Oliveira de Mendes, 38, moradora em Ourém, autora de dois blogues dedicados à culinária e administradora do site “Cozinhas do Mundo” (uma espécie de comunidade de blogues gastronómicos em língua portuguesa) faz a receita em casa, de 15 em 15 dias. “Já fiz muitas vezes e fica muito bom”. Ela experimentou-o, pela primeira vez, como entrada num restaurante em Espinho, no norte do país. Elvira publicou em seu blog a receita de pão de queijo depois de a encontrar numa revista brasileira de culinária, “Cozinhando com Malu”, vendida em Portugal. “Há alguns portugueses que procuram pão de queijo. Parece que está na moda”, sugere.
Ao contrário, os comerciantes dizem que a guloseima ainda não é popular em Portugal. “Ainda se vende muito pouco, porque grande parte dos portugueses ainda não o experimentou ou, se já ouviram falar, não percebem a ideia de um pão que não è feito com farinha”, diz o paulista Walter Pinter, 45, que veio do Brasil para organizar um franchising da “Casa do Pão de Queijo”. Os clientes também não gostam do preço, mas Pinter com uma resposta na ponta da língua explica que o pão de queijo se compara ao pastel de nata: ambos são pequenos e custam quase um euro, isto porque são produzidos com elementos nobres. “É o pastel de nata dos brasileiros”, compara.
Segundo o empresário, os portugueses que consomem pão de queijo são pessoas que já moraram ou fizeram turismo no Brasil. Apesar da dificuldade em vulgarizar a venda do produto em Portugal, Pinter conta que se ouve dizer que a origem do pão de queijo rudimentar pode estar ligada aos portugueses colonizadores. “Depois de estarem um tempo no Brasil queriam fazer pão, mas ainda não havia farinha. Então, começaram a usar a fécula de mandioca (da qual o polvilho é fabricado) utilizada pelos índios na alimentação diária para a fabricação do pão.” A partir daí, acredita-se que tenha surgido o primeiro arquétipo de um pão de queijo, seguido de evoluções da receita, com o acréscimo do queijo e outros ingredientes. Contudo, como lembra Pinter, muitos dos portugueses não chegaram a difundir a receita em Portugal, porque não voltaram à terra natal.
Agora, pode-se encontrar facilmente pães de queijo em cafés e pastelarias portuguesas. Grande parte compra de distribuidores, mas há quem faça no próprio local de trabalho. Com cerca de 50 anos de história na Praça da Figueira, o Café “D. João I” está a vender o pão redondinho há seis meses. Os pães chegam congelados, através um distribuidor. “Vieram-nos oferecer, não conhecíamos, resolvemos experimentar e vender. No início teve pouca procura mas, agora, portugueses e turistas de todos os lados consomem”, explica o gerente, José Rocha.
No Centro Comercial Vasco da Gama, o pão de queijo não é difícil ser encontrado. Tanto no “Bagas Café”, como no “Café com Bolo,” pode comer-se o pãozinho. A diferença é que, no segundo, o produto é fabricado in loco, por uma cozinheira portuguesa. Um dos funcionários, questionado sobre o porquê de se vender pão de queijo, diz que há muita imigração em Lisboa e, por esse motivo, a restauração começa a comercializar produtos de interesse dos imigrantes. Apesar disso, diz que muitos portugueses procuram o pão de queijo. “Temos dois clientes que vêm ao Café só para o comer.”
E até mesmo quem não está à procura ou não sabe o que é pode ser surpreendido por um teletexto com uma promoção de um pão de queijo e um café por um preço especial. É o caso da “Casa do Pão”, na Estação do Oriente, que na montra coloca o produto brasileiro há um ano e está a fazer a promoção desde o último Inverno. A supervisora do comércio, Maria Dulce Ferreira, diz que o público alvo está alargado: “Há muitos ingleses que perguntam se temos pão de queijo”.
Distribuidores e fabricantes em Portugal
Em Portugal, há um número significativo de fabricantes e distribuidores de pão de queijo. Custódio Gomes da Conceição, 64, é um dos fabricantes de matéria-prima dessa iguaria. É português e viveu no Brasil 45 anos a trabalhar com produtos alimentícios. Actualmente a viver no Porto está há três anos a fabricar e comercializar o “mix” para sete fabricantes e 16 distribuidores de norte a sul do país. Não muito conhecido pelo grande público, o “mix” é uma mistura de polvilho azedo, polvilho doce, amido de mandioca modificado, leite, gordura, aroma de queijo e sal que facilita a produção industrial do pão de queijo. É uma espécie de farinha, depois é só acrescentar ovos, leite e o queijo propriamente dito. Custódio Gomes da Conceição explica que a mistura foi criada por um grupo holandês pela necessidade de agilizar a industrialização do pão de queijo, em 1987, no Brasil. Segundo o empresário, o “mix” não se encontra nos supermercados e é apenas destinado à produção industrial.
Quanto à historia do pão de queijo em Portugal, Gomes da Conceição explica que no início dos anos 90 muitos brasileiros tentaram criar pequenas fábricas, mas não vingaram. Foi em 1996, segundo o empresário, que houve o primeiro empreendimento profissional por parte de um grupo ibérico. De acordo com o fabricante, não tem sido fácil o investimento, porque o mercado português é conservador, e incutir o hábito de comer um alimento que não faz parte da culinária portuguesa é muito lento. “Na parte centro-sul do país é onde se vende mais, por causa da concentração de imigrantes e turistas, entretanto, no norte encontra-se com mais facilidade e as pessoas já sabem o que é, porque muitos portugueses que imigraram para o Brasil são daqui”.
A empresa Geldouro Produtos Congelados, em Vila do Conde, importa o produto do Brasil, da marca “Primo”, desde 2004, e distribui a nível nacional, para grandes pontos de venda como Continente, Modelo, Makro, El Corte Inglés, Bonjour, Carrefour e Auchan.
Os ingredientes do pão de queijo - os ovos, o leite, o queijo ralado, o sal e o polvilho - já estão sobre a mesa da cozinha, enquanto ao fogo se prepara o “escaldado”, um fervido de óleo e leite, que ajuda a humedecer o polvilho e a formar uma massa homogénea.
Quem o está a preparar, em sua casa, é a brasileira Elizabeth Jubilot para a ensinar a receita ao enteado português, Daniel Jubilot, 24, que se intitula “viciado” em pão de queijo. Daniel, morador de Lisboa, já tinha comido muitas vezes o pão de queijo, mas não conhecia a receita. No final da liçao culinária, sente-se satisfeito com o resultado, e vê que afinal é facil fazer a massa e enrolá-la depois em forma de pequenas bolinhas.
Assim como Daniel, outros portugueses já têm o pão de queijo como um hábito alimentar, seja feito em casa ou comprado no café da esquina para acompanhar o cafezinho diário. Elvira Jesus de Oliveira de Mendes, 38, moradora em Ourém, autora de dois blogues dedicados à culinária e administradora do site “Cozinhas do Mundo” (uma espécie de comunidade de blogues gastronómicos em língua portuguesa) faz a receita em casa, de 15 em 15 dias. “Já fiz muitas vezes e fica muito bom”. Ela experimentou-o, pela primeira vez, como entrada num restaurante em Espinho, no norte do país. Elvira publicou em seu blog a receita de pão de queijo depois de a encontrar numa revista brasileira de culinária, “Cozinhando com Malu”, vendida em Portugal. “Há alguns portugueses que procuram pão de queijo. Parece que está na moda”, sugere.
Ao contrário, os comerciantes dizem que a guloseima ainda não é popular em Portugal. “Ainda se vende muito pouco, porque grande parte dos portugueses ainda não o experimentou ou, se já ouviram falar, não percebem a ideia de um pão que não è feito com farinha”, diz o paulista Walter Pinter, 45, que veio do Brasil para organizar um franchising da “Casa do Pão de Queijo”. Os clientes também não gostam do preço, mas Pinter com uma resposta na ponta da língua explica que o pão de queijo se compara ao pastel de nata: ambos são pequenos e custam quase um euro, isto porque são produzidos com elementos nobres. “É o pastel de nata dos brasileiros”, compara.
Segundo o empresário, os portugueses que consomem pão de queijo são pessoas que já moraram ou fizeram turismo no Brasil. Apesar da dificuldade em vulgarizar a venda do produto em Portugal, Pinter conta que se ouve dizer que a origem do pão de queijo rudimentar pode estar ligada aos portugueses colonizadores. “Depois de estarem um tempo no Brasil queriam fazer pão, mas ainda não havia farinha. Então, começaram a usar a fécula de mandioca (da qual o polvilho é fabricado) utilizada pelos índios na alimentação diária para a fabricação do pão.” A partir daí, acredita-se que tenha surgido o primeiro arquétipo de um pão de queijo, seguido de evoluções da receita, com o acréscimo do queijo e outros ingredientes. Contudo, como lembra Pinter, muitos dos portugueses não chegaram a difundir a receita em Portugal, porque não voltaram à terra natal.
Agora, pode-se encontrar facilmente pães de queijo em cafés e pastelarias portuguesas. Grande parte compra de distribuidores, mas há quem faça no próprio local de trabalho. Com cerca de 50 anos de história na Praça da Figueira, o Café “D. João I” está a vender o pão redondinho há seis meses. Os pães chegam congelados, através um distribuidor. “Vieram-nos oferecer, não conhecíamos, resolvemos experimentar e vender. No início teve pouca procura mas, agora, portugueses e turistas de todos os lados consomem”, explica o gerente, José Rocha.
No Centro Comercial Vasco da Gama, o pão de queijo não é difícil ser encontrado. Tanto no “Bagas Café”, como no “Café com Bolo,” pode comer-se o pãozinho. A diferença é que, no segundo, o produto é fabricado in loco, por uma cozinheira portuguesa. Um dos funcionários, questionado sobre o porquê de se vender pão de queijo, diz que há muita imigração em Lisboa e, por esse motivo, a restauração começa a comercializar produtos de interesse dos imigrantes. Apesar disso, diz que muitos portugueses procuram o pão de queijo. “Temos dois clientes que vêm ao Café só para o comer.”
E até mesmo quem não está à procura ou não sabe o que é pode ser surpreendido por um teletexto com uma promoção de um pão de queijo e um café por um preço especial. É o caso da “Casa do Pão”, na Estação do Oriente, que na montra coloca o produto brasileiro há um ano e está a fazer a promoção desde o último Inverno. A supervisora do comércio, Maria Dulce Ferreira, diz que o público alvo está alargado: “Há muitos ingleses que perguntam se temos pão de queijo”.
Distribuidores e fabricantes em Portugal
Em Portugal, há um número significativo de fabricantes e distribuidores de pão de queijo. Custódio Gomes da Conceição, 64, é um dos fabricantes de matéria-prima dessa iguaria. É português e viveu no Brasil 45 anos a trabalhar com produtos alimentícios. Actualmente a viver no Porto está há três anos a fabricar e comercializar o “mix” para sete fabricantes e 16 distribuidores de norte a sul do país. Não muito conhecido pelo grande público, o “mix” é uma mistura de polvilho azedo, polvilho doce, amido de mandioca modificado, leite, gordura, aroma de queijo e sal que facilita a produção industrial do pão de queijo. É uma espécie de farinha, depois é só acrescentar ovos, leite e o queijo propriamente dito. Custódio Gomes da Conceição explica que a mistura foi criada por um grupo holandês pela necessidade de agilizar a industrialização do pão de queijo, em 1987, no Brasil. Segundo o empresário, o “mix” não se encontra nos supermercados e é apenas destinado à produção industrial.
Quanto à historia do pão de queijo em Portugal, Gomes da Conceição explica que no início dos anos 90 muitos brasileiros tentaram criar pequenas fábricas, mas não vingaram. Foi em 1996, segundo o empresário, que houve o primeiro empreendimento profissional por parte de um grupo ibérico. De acordo com o fabricante, não tem sido fácil o investimento, porque o mercado português é conservador, e incutir o hábito de comer um alimento que não faz parte da culinária portuguesa é muito lento. “Na parte centro-sul do país é onde se vende mais, por causa da concentração de imigrantes e turistas, entretanto, no norte encontra-se com mais facilidade e as pessoas já sabem o que é, porque muitos portugueses que imigraram para o Brasil são daqui”.
A empresa Geldouro Produtos Congelados, em Vila do Conde, importa o produto do Brasil, da marca “Primo”, desde 2004, e distribui a nível nacional, para grandes pontos de venda como Continente, Modelo, Makro, El Corte Inglés, Bonjour, Carrefour e Auchan.
terça-feira, fevereiro 05, 2008
sábado, julho 14, 2007
Viver em comunidade é barato, mas dá trabalho
Naquela casa, as tarefas domésticas e o zelo pelos utensílios tinham que ser seguidos à risca. Eu sabia disto e eles também. A arquitecta, a mais zelosa pela casa estava em férias, e durante sua ausência uma prateleira se partiu por excesso de peso, uma colher de pau trazida do Quénia para Europa partiu-se também e mudamos todos os móveis de lugar; aproveitei para colocar em palco o cenário que mais gostava. Nós que temos mais de 20 anos e para mais de 30 anos sentíamos como adolescentes quando ficam em casa sozinhos como quando os pais vão de viagem. Tínhamos no calendário a marca do retorno da nossa amiga, que era para limparmos a casa na véspera da sua chegada e novamente montar o palco. A paranòia gera receios e foi neste tom de confissao que disse ao meu amigo de casa:
- Ontem quebrei um copo; e ele sem entender bem a pronúncia perguntou-me:
- O quê...?!
- Eu abaixei o tom de voz e repeti:
- Eu quebrei um copo de vidro ontem, mas não conte a ninguém.
- E qual é o mal disto?
- É que já quebramos coisas por demais!
A cozinha era o grande cerne da questao. Tem sempre alguma coisa a chatear, nem que seja um copo sujo de café. E era na cozinha que existia o indicio maior da organizaçao domestica. Além de ter uma grade horària de quem està escalado para a semana de limpeza da casa que inclui a gestao dos espaços comuns, hà um bilhete pregado à parede, com os seguintes dizeres: “Mantenham os pratos limpos para uma boa coabitação”. Eu quando li aquilo, li mal, li em voz alta e pensei: o que raio tinha a ver a limpeza dos pratos com uma boa coabitação; e aconselho o leitor que também leia em voz alta, porque tem piada, para quem sabe bem português.
A verdade é que, ultimamente, comecei a pensar na “tarefa doméstica”, como ela se dá e como lidamos com ela. Seja a morar com a família ou com amigos é sempre motivo de pequenas discórdias e chatices connosco mesmo, isto, porque temos excentricidades! Eu gosto de apertar a pasta de dente sempre no mesmo lugar, de forma que ela fique agregada e não gosto de vê-la de outro jeito. Chateio-me. Uma das pessoas que divide a casa comigo não gosta de acordar e ver loiça suja na pia mas, alguém quando chega em casa com uma leve embriaguez não anima a mexer com sabão, água e loiça. È perdoável? Não sei.
Viver em comunidade é barato, mas dá trabalho. Uma das regras é: não cobre, porque vai ser cobrado.
O código de postura da esfera doméstica diz que não se deve meter papéis na sanita porque entope e depois quem é que limpa os excrementos? Fui a uma casa um dia, em Lisboa, em que havia bilhetes escritos em mais de cinco línguas, na casa de banho, com a advertência: “Não metas papéis na sanita!” Para tornar a coisa mais significativa ilustraram com desenhos de sanitas e indicações da lixeira, com setas e tudo mais. Achei um bom recurso.
Também gosto de ver a tampa da sanita sempre fechada. Poxa, mas ninguém a fecha? Acho que a minha mãe foi uma das únicas a ensinar isto, ela também metia lá acima do vaso sanitário (como se diz no Brasil): “Abaixe a tampa do vaso depois de usar”. Eu absorvi o ensinamento, antes não tivesse, porque é uma norma contra o sistema comum das pessoas e irrito-me às vezes comigo mesma. Mas se as pessoas soubessem que a cada puxada de autoclismo com a tampa aberta se espalha germes pela casa de banho toda, inclusive para as escovas de dente, poderia ser que se lembrariam de fechar a tampa.
É que a nossa amiga chegou de viagem e foi logo recolocar a prateleira que se partiu. Não se chateou por termos partido, mas disse logo: “Fogo, mas ninguém arrumou isso antes porquê?” Também arranjou um lustre da cozinha que já estava a ameaçar a cabeça de um co-habitante, porque estava a cair do tecto. E ela também disse: “Fogo, mas era fácil arrumar isto”. Recolocou a cortina de banho que alguém tinha trocado por estar muita suja. Ninguém se chateou, porque era transparente e ficou bonita por cima da outra. Todos ficaram felizes, mas ficou no ar aquele clima de : c’est la vie.
- Ontem quebrei um copo; e ele sem entender bem a pronúncia perguntou-me:
- O quê...?!
- Eu abaixei o tom de voz e repeti:
- Eu quebrei um copo de vidro ontem, mas não conte a ninguém.
- E qual é o mal disto?
- É que já quebramos coisas por demais!
A cozinha era o grande cerne da questao. Tem sempre alguma coisa a chatear, nem que seja um copo sujo de café. E era na cozinha que existia o indicio maior da organizaçao domestica. Além de ter uma grade horària de quem està escalado para a semana de limpeza da casa que inclui a gestao dos espaços comuns, hà um bilhete pregado à parede, com os seguintes dizeres: “Mantenham os pratos limpos para uma boa coabitação”. Eu quando li aquilo, li mal, li em voz alta e pensei: o que raio tinha a ver a limpeza dos pratos com uma boa coabitação; e aconselho o leitor que também leia em voz alta, porque tem piada, para quem sabe bem português.
A verdade é que, ultimamente, comecei a pensar na “tarefa doméstica”, como ela se dá e como lidamos com ela. Seja a morar com a família ou com amigos é sempre motivo de pequenas discórdias e chatices connosco mesmo, isto, porque temos excentricidades! Eu gosto de apertar a pasta de dente sempre no mesmo lugar, de forma que ela fique agregada e não gosto de vê-la de outro jeito. Chateio-me. Uma das pessoas que divide a casa comigo não gosta de acordar e ver loiça suja na pia mas, alguém quando chega em casa com uma leve embriaguez não anima a mexer com sabão, água e loiça. È perdoável? Não sei.
Viver em comunidade é barato, mas dá trabalho. Uma das regras é: não cobre, porque vai ser cobrado.
O código de postura da esfera doméstica diz que não se deve meter papéis na sanita porque entope e depois quem é que limpa os excrementos? Fui a uma casa um dia, em Lisboa, em que havia bilhetes escritos em mais de cinco línguas, na casa de banho, com a advertência: “Não metas papéis na sanita!” Para tornar a coisa mais significativa ilustraram com desenhos de sanitas e indicações da lixeira, com setas e tudo mais. Achei um bom recurso.
Também gosto de ver a tampa da sanita sempre fechada. Poxa, mas ninguém a fecha? Acho que a minha mãe foi uma das únicas a ensinar isto, ela também metia lá acima do vaso sanitário (como se diz no Brasil): “Abaixe a tampa do vaso depois de usar”. Eu absorvi o ensinamento, antes não tivesse, porque é uma norma contra o sistema comum das pessoas e irrito-me às vezes comigo mesma. Mas se as pessoas soubessem que a cada puxada de autoclismo com a tampa aberta se espalha germes pela casa de banho toda, inclusive para as escovas de dente, poderia ser que se lembrariam de fechar a tampa.
É que a nossa amiga chegou de viagem e foi logo recolocar a prateleira que se partiu. Não se chateou por termos partido, mas disse logo: “Fogo, mas ninguém arrumou isso antes porquê?” Também arranjou um lustre da cozinha que já estava a ameaçar a cabeça de um co-habitante, porque estava a cair do tecto. E ela também disse: “Fogo, mas era fácil arrumar isto”. Recolocou a cortina de banho que alguém tinha trocado por estar muita suja. Ninguém se chateou, porque era transparente e ficou bonita por cima da outra. Todos ficaram felizes, mas ficou no ar aquele clima de : c’est la vie.
sexta-feira, junho 22, 2007
ENTREVISTA: "Quero produzir o primeiro filme porno português com qualidade internacional"
Não há vídeos pornográficos em Portugal que possam ser chamados filmes. Mas há muitos consumidores em Portugal, porque até os vídeos amadores se vendem muito. Liz Vahia diz que quer fazer o primeiro filme pornográfico português com qualidade.
Liz Vahia é uma jovem de 28 anos. Lisboeta, tirou o curso de Antropologia na Universidade de Coimbra em 2002. Faz produções culturais em teatro e cinema, escreve sobre Arte Contemporânea, esporadicamente, para a Revista “Afinidades” da reitoria da Universidade do Porto, já escreveu para a “arteciência” e vai começar a escrever para “Arte Capital”, a partir de Julho. Autora da performance “passeia-me”, encenação que joga com a linguagem Sado-maso, não é conservadora e assume que é uma consumidora de pornografia desde a adolescência, sem ser censurada pelos pais. Tanto que começou a sentir-se incomodada com a má e quase inexistente produção cinematográfica porno em Portugal. Agora quer produzir o primeiro filme porno profissional português com qualidade de exportação, em conjunto com o amigo e programador de cinema, Sérgio Marques; porque acha que pode fazer melhor do que é comercializado actualmente: os vídeos amadores feitos por casais. Precisam de dinheiro e sobretudo de actores que, segundo ela, são difíceis de conseguir, porque há muitos que se interessam, mas não dão a cara. O cineasta Stanley Kubrick tentou produzir um filme porno de qualidade e não conseguiu por causa dos entraves sociais, Liz vê-se na mesma situação, mas vai à luta e já agora na terceira edição do Salão Internacional Erótico em Lisboa, de 21 a 24 de Junho, terá um stand, a fazer casting para selecção de actores e a divulgar o filme.
Cláudia: Como surgiu o interesse pelo filme porno?
Liz: Quando estava a tirar Antropologia pensei em ter a indústria pornográfica portuguesa como tema da tese de licenciatura. O meu interesse efectivo deu-se em 2005 quando um amigo, programador de cinema, me propôs fazer um ciclo de cinema pornográfico, com o intuito de um festival comum, que toda gente fosse ver. Entretanto, foi durante a pesquisa que constatei que não há produção pornográfica em Portugal.
Cláudia: Mas há alguns, como o Sá Leão....
Liz: Há algumas distribuidoras que lançam alguns vídeos, mas chamar “filmes” àquilo é um favor muito grande. Sá Leão é o mais conhecido, porque é mediático, teve uma saída na televisão. Há um outro realizador que assina PAC. A maior parte dos filmes não são assinados, são produções amadoras. São casais que possuem alguma fantasia sexual, convidam amigos, filmam e vendem o produto bruto e os direitos todos sobre o mesmo às distribuidoras por cerca de 700 contos (3.500 euros). Aquilo é montado às três pancadas...
Cláudia: E por que é que as coisas funcionam assim... Não há consumidores de pornografia em Portugal?
Liz: Muitos, mas não dão a cara. É por isso que o cinema pornográfico não avança. Se aparece a palavra “sexo” em alguma cena particular logo os bilhetes se esgotam. Por exemplo, no Indie apresentou-se um filme que tratava da história de um pornógrafo. Uma semana antes já não havia bilhetes. As pessoas têm uma reacção estranha, se um personagem bate uma punheta, as pessoas riem-se quando não tem graça. Assumem uma posição de deboche, tipo “estou aqui por uma questão cultural, sarcástica”. Sentem-se desconfortáveis em ver cenas de sexo. Vão, mas com aquela capa cultural, de que estou aqui, mas acho graça nisto tudo.
Cláudia: Qual é sua avaliação dos poucos filmes portugueses que estão no mercado?
Liz: Para um filme porno ser considerado bom, às vezes nem é uma questão de argumento, é preciso ter no elenco gajas bonitas, com corpos voluptuosos. E os filmes portugueses não tem sequer actores profissionais. As histórias são forçadas, são colagens. Alguns tentam algumas narrativas baseadas em fetiches e insistem nos clichés das relações proibidas, como o sexo com o vizinho, com o canalizador que vai a casa, patrão-empregada, professor-aluna...Não há profissionalismo. Os poucos vídeos são retratos de fantasias de casais que são filmados no espaços das distribuidoras. Vê-se as prateleiras com filmes e livros; arredam as mesas, metem os colchões no chão. A qualidade de imagem é horrível. E na maior parte das vezes o gajo que está a filmar faz comentários. Vejo com um comando na mão.
Cláudia: E isto vende-se?
Liz: Sim. Porque as pessoas têm curiosidade em ver que são portugueses, constatar que são pessoas que podem ver na rua. Mas compram um, porque custam caro a volta de 20 euros. Compram, acham piada e depois não consomem mais.
Cláudia: E estas pessoas que fazem os filmes podem tornar-se actores?
Liz: Mesmo que queiram tornar-se profissionais não há produção para eles, só fazem um filme ou dois e depois desaparecem. Não existe a vontade de se tornar uma estrela porno. Ganham tipo 700 euros por dois dias e ficam satisfeitos. Mas acredito que há pessoas que queiram, porém as produções não se interessam em profissionalizá-los, porque não têm o intuito de produzir filmes com qualidade técnica.
Cláudia: Qual a importância do filme porno?
Liz: Quando eu fiz entrevistas aos consumidores de pornografia, houve um gajo que me disse que o cinema pornográfico era bom porque lhe permitia fantasias instantâneas. Era só ter o comando à mão, clicar, e já ficava a excitar-se. Eu gostei, porque é uma visão muito prática. É uma relação muito normal com a pornografia, como algumas pessoas chegam a casa e vão ver telenovela, algumas pessoas chegam a casa e vão ver pornografia. Deve ter alguma importância, desde o momento que surgiu a fotografia passaram a surgir imagens pornográficas, e aconteceu desde o surgimento da câmara.
Cláudia: Acha que os filmes pornográficos têm alguma importância no sentido de ensinar as pessoas como o sexo é, ou como se deve fazê-lo?
Liz: Isto é uma questão que se pode ver por dois lados. Os produtores ao princípio buscaram este argumento que tinha um médico de bata branca a explicar as cenas, daí veio o termo “filmes para adultos”, partindo da ideia de que sexo deve ser ensinado aos adultos. Mas por outro lado, o sexo mostrado em filmes pornográficos não corresponde à realidade porque é artificial e exagerado. As pilas e as mamas dos personagens são muito grandes; é tudo muito abstracto, não há história. Aquilo está feito para o espectador ver melhor e não para eles terem prazer um do outro. .
Cláudia: Qual a importância de se fazer um filme porno português?
Liz: Acho tão mau o cinema porno português que me senti impulsionada, junto com o Sérgio Marques, a fazer algo melhor, com qualidade. Além disso temos o apoio de amigos que são profissionais do cinema de renome e ofereceram-se para produzir o filme de graça. Já temos a equipe de produção montada, só precisamos da equipe artística (os actores).
Cláudia: E o que caracteriza um filme pornográfico de qualidade?
Liz: Muito discutimos (equipa de produção) sobre isso e não chegamos a um consenso seguro. Mas o que se pode dizer basicamente é que é necessário bons actores e boa iluminação.
Cláudia: E como vai conseguir os actores?
Liz: Este é o nosso objectivo, entre outros, com o stand no Salão Erótico em Lisboa, conseguir actores, divulgar a ideia do filme e conseguir dinheiro para a produção. Não precisamos de muito, 10 mil euros já chega para fazer. Nós temos o Festival Internacional de Cinema Erótico de Barcelona (FICEB) que se propôs a apresentar o filme com toda pompa e circunstância.
Cláudia: Como vai funcionar o stand no Salão Erótico?
Liz: O nosso stand, em relação aos outros, vai ter uma estrutura fechada. Vamos ter uma espécie de mesa, passaremos um vídeo com trailer sobre o nosso filme, e também vídeos de artistas portugueses que trabalham como pornografia. As pessoas interessadas em fazer o casting vão passar por um teste de imagem e responder um questionário escrito.
Cláudia: Quantos actores são necessários?
Liz: Para ser um bom deve ter no mínimo 5 mulheres e 4 homens. A média é 5, 6.
Cláudia: Do que se trata o filme?
Liz: Temos dois guiões; o primeiro é a historia de um homem e uma mulher num cenário futurista que recebem uma missão para eliminar uma raça alienígena, a qual tem aparência humana e única coisa que os distingue dos humanos è um chip na pila. A ideia era filmar isto em edifícios assim que tem uma traça mais moderna, como os da expo.
O segundo aproveitamos a ideia dos quartos de um hotel, onde em cada quarto se passa uma história. Não quero falar muito sobre esta segunda ideia porque, provavelmente, é a que vamos fazer.
terça-feira, junho 19, 2007
Procura-se estrela porno portuguesa
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